o mercado literário nacional

Em uma pesquisa sobre editoras e modos de publicação de um original, você provavelmente localizará o texto “6 coisas que você não deve fazer para publicar seu livro”. Amargo, sincero e excelente, conduz um possível autor à não cometer erros como achar que sabe demais, valorizar sua obra mais do que o esperado, e até subestimar o trabalho alheio.

Assim, Jana Lauxen, de 31 anos, se faz peça do mercado literário e editorial do Brasil. Editora, produtora cultural e autora de Uma Carta por Benjamin (2009), O Túmulo do Ladrão (2013) e do mais recente, O Duplo da Terra (2016), tem publicações em mais de quinze coletâneas e organizou dez, algumas em parceria com outros escritores. É responsável pelo Projeto Nascedouro, da Editora Os Dez Melhores, e ministra palestras e oficinas literárias gratuitas para alunos de escolas públicas. Já organizou e editou quatro livros através desta iniciativa, publicando textos e desenhos de mais de 120 estudantes gaúchos.

Para escritores, amantes da literatura, e até para quem tem aquela certa dúvida sobre a publicação de um livro,  o Casacinza entrevistou a Jana para saber de tudo um pouco: o novo livro, O Duplo da Terra (que tem uma premissa pra lá de curiosa), o mercado literário e os desafios do Brasil no ramo.

Jana, como é o seu processo criativo na hora de escrever um livro? Você começa por alguma etapa específica, deixa o título por último, escreve em ordem cronológica?
Geralmente, a ideia surge com uma frase. No caso do meu último livro, O Duplo da Terra, foi: um avião que desaparece sem deixar vestígios e reaparece 25 anos depois, voando como se nada tivesse acontecido, com todos os passageiros a bordo. E em torno desta frase, desta ideia principal, eu vou criando o enredo. Percebo que, hoje, sou bem mais organizada na hora de estruturar um livro. Há treze anos, quando escrevi meu primeiro original, eu não parava para pensar na disposição da história antes de escrever. Eu não pensava e depois escrevia; eu pensava enquanto escrevia. O resultado disso é que este primeiro original ficou com mais de 500 páginas (risos). Atualmente, quando começo um novo livro, eu já tenho a história totalmente definida, e sei exatamente o que vai acontecer em cada capítulo, inclusive no último.

Em relação ao tempo para escrever: você é muito ocupada, imagino que não seja fácil manter uma consistência na escrita. Como você divide todas as tarefas profissionais, a vida e o livro iniciado?
É preciso certa disciplina, e é até engraçado eu falando em disciplina, pois sou a pessoa mais indisciplinada do sistema solar. Mas, neste caso, é preciso disciplina e vontade de fazer acontecer. Quando estou escrevendo um livro, tempo livre é tempo de escrever. Escrevo domingo de manhã, sexta de noite, sábado de madrugada, em feriados. Um processo bem compulsivo, mas gratificante. Além disso, reservo um dia da semana para me dedicar exclusivamente à leitura e revisão da obra. No caso d’O Duplo da Terra, era no sábado. Sábado virou dia sagrado pra mim. Fora isso, também escrevo crônicas para alguns jornais e revistas locais, o que mantém meu blog atualizado e eu, produzindo. No meu caso, prazos são ótimos estimulantes na hora de escrever.

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A capa do livro O Duplo da Terra (esq.), Jana em eventos do lançamento do livro (meio/dir.)  Fotos de Fernão Duarte.

Como é manter uma editora em um mercado cada vez mais restrito e competitivo? Quais são os desafios enfrentados pela Os Dez Melhores hoje?
O maior desafio não é exatamente um mercado fechado e competitivo – apesar de que este também é um problema sério. A grande dificuldade em manter uma editora no Brasil é o fato de que não temos leitores.Veja que vivemos em um país onde 75% da população nunca frequentou uma biblioteca. Em 2014, 70% dos brasileiros não leram um único livro. Nossa média de leitura é risível, e este sim é um grande desafio: como vender livros para quem não lê? Por isso nosso slogan é “Livros para Leitores”. Porque vejo muitos livros sendo lançados para agradar escritores e editores, mas que sequer chegam ao leitor. A Editora Os Dez Melhores quer chegar ao leitor, e por isso realizamos muitas atividades em campo: em escolas, em feiras de rua, em festas, ou onde nos deixarem entrar. Mantemos também o projeto Nascedouro, um selo que busca estimular a leitura e a escrita entre crianças e adolescentes. Através desta iniciativa, já publicamos textos e desenhos de mais de 120 estudantes gaúchos. Com mais leitores, o mercado editorial tende a se abrir, e a entrar em um sistema mais colaborativo e menos competitivo. O resultado é que todos ganham: escritores, leitores, editores, editoras, livrarias, bibliotecas, país. Este é o nosso principal desafio – mas não é só nosso. É o principal desafio de toda editora e escritor com noção de mercado e de realidade.

Quais são as etapas de publicação de um livro desde o recebimento de um original?
O processo é mais longo e complexo do que pode parecer em um primeiro momento, especialmente se o objetivo for lançar uma obra com qualidade gráfica, literária e editorial. Primeiro, a editora deve avaliar o original. Acreditem ou não, a maioria das editoras ou aprova ou desaprova todos, sem sequer lê-los. Estando o livro de acordo com nossos objetivos editoriais, e todos os trâmites legais realizados (contrato de edição e etc.), é hora de entrar em produção. A obra será lida novamente pelo editor, que irá conferir eventuais erros de coerência e enredo. Após, o livro vai para as mãos dos revisores. Geralmente dois, para garantir a qualidade ortográfica. Enquanto isso, são realizados os registros necessários, como ISBN e Ficha Catalográfica. No caso da Editora Os Dez Melhores também contratamos um ilustrador para criar uma imagem exclusiva de capa e quarta capa para o livro. Estando o texto devidamente editado e revisado, os registros devidamente feitos, assim como a imagem de capa, o material é enviado então para o diagramador, que elaborará os arquivos finais do livro, antes de ir para a gráfica. Até aqui, estamos falando em cinco meses de trabalho contínuo. E após a impressão do livro, termina uma etapa e inicia-se o trabalho de promoção, lançamento e divulgação.

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Jana no lançamento da Gazeta do Novo Escritor, no municíoio de Sananduva, 2015. Foto de Fernão Duarte.

Você publicou um texto sobre os cuidados que um autor deve ter ao procurar uma editora, dando dicas, sugerindo e criticando os comportamentos gerais de uma pessoa que quer ter seu livro publicado. Essas “regras” se aplicam a todos os autores ou aqueles que já têm obras publicadas passam por um crivo menor?
Aplicam-se a todos os autores. Até por que, hoje em dia, ter um livro publicado se tornou algo bastante acessível, e encontramos muitos jovens autores com dois, três, quatro livros já lançados. A quantidade de obras publicadas não necessariamente se reflete em qualidade e profissionalismo.

Com que frequência um escritor tem certeza de estar com um best-seller em mãos e o livro não chega sequer a ser publicado?
Olha, vou te dizer que com uma frequência bem alta. Não digo que não será publicado, já que, hoje em dia, publicar é fácil, e conseguimos até de graça, em plataformas como a Amazon. Publicado, provavelmente o livro será. No entanto, a pergunta é: o livro será lido? O livro será vendido? A maioria inicia-se na vida literária porque “escrever é o seu sonho”, e justamente por ver o ofício da escrita com tanto romantismo, muitos acreditam que são fenômenos literários ainda não revelados, e que seu livro é um forte candidato a vender milhões de exemplares, virar filme, ganhar prêmios, ser badalado e ovacionado. Isso tudo faz parte do “sonho” de ser escritor. Porém, se o sujeito almeja realmente se tornar um escritor, precisará enxergar a literatura com olhos mais profissionais e menos delirantes, pois isso só gera frustração e desgaste ao novo autor. Quando seus “sonhos literários”, que geralmente são estratosféricos, não se realizam, vêm a decepção, e muitos até mesmo param de escrever. A verdade é que boa parte dos novos autores brasileiros buscam a fama com mais veemência do que buscam escrever um livro de qualidade.

O mercado literário do Brasil passou, recentemente, por uma mudança. Livros de Youtubers e de colorir passaram a figurar nas listas dos mais vendidos, desbancando romances e livros de auto-ajuda, que sempre costumaram vender mais. Isso se deve somente a um interesse comercial? Quanto a internet colabora com esse processo?
O grande problema enfrentado pelo mercado literário é a falta de leitores. Todavia, os próprios leitores, aqueles que leem mais de dois livros por ano, muitas vezes acabam lendo os best-sellers, ou seja: aquilo que a mídia aponta, que a mídia mostra, que a mídia aposta, que a mídia divulga. Então, é natural que livros de colorir, ou livros escritos por celebridades, ganhem espaço. Afinal, as grandes editoras também precisam se manter em um país que não lê; logo, elas investem naquilo que vende, independente da qualidade e da relevância da obra.
Sobre a internet, ela é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que nos dá acesso a um número infinito de textos, artigos e livros, e colabora efetivamente na divulgação de autores e editoras independentes, também pode ser narcotizante e emburrecedora. A internet é um meio; somos nós, pessoas, que fazemos bom ou mau uso dela.  No caso do Brasil, somos pessoas que não leem; consequentemente, é natural que a internet se torne mais nociva do que benéfica para nós.

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Lançamento do Jovens Escritores Brasileiros, em Sananduva, no ano de 2014. Foto de Vera Regina Luminate.

A editora Os Dez Melhores possui um operacional de publicar apenas 10 livros por ano no máximo e, além disso, realiza projetos e coletivos junto de suas atividades. Como é equilibrar isso tudo e qual a importância desses projetos?
Eu considero nossos projetos importantes por conta de seu objetivo final: estimular a leitura, formar novos leitores, e colocar nossos livros nas mãos de quem mais precisa deles: aquele cara que não lê porque acredita que ler é chato. Assim, mais do que produzir, editar e lançar obras de qualidade, todo título publicado pelo nosso selo possui também um projeto de divulgação e distribuição, que visa levá-lo até escolas, praças, festas, ou onde estiver o potencial leitor. E equilibramos estes projetos publicando menos livros. É lógico que uma editora que lança dez, vinte, cinquenta livros por mês jamais vai conseguir realizar um trabalho de qualidade em cima de cada título. Então, publicamos menos e trabalhamos mais efetivamente em cima de cada livro lançado.

Em “O Duplo da Terra”, seu novo livro, um avião some após decolar e reaparece 25 anos depois, nas mesmas condições, com apenas uma tripulante aparentemente mais velha. A premissa é incrivelmente interessante. De onde veio a inspiração para escrever esse livro?
Em um dia de 2014, eu e minha mãe estávamos assistindo TV, e passava uma reportagem sobre o voo MH370, da Malaysia Airlines, que desapareceu dia 08 de março de 2014 e até hoje não foi localizado. Nós conversávamos sobre isso e o que poderia ter acontecido. Até que ela disse: “Imagina daqui uns anos este avião reaparecer voando?”. E eu completei: “E a bordo todos os passageiros, vivos e bem?”. Ela então finalizou: “E com a mesma idade de quando desapareceram?”. A partir dali, comecei a esboçar a ideia inicial da obra, e inclusive cancelei temporariamente o projeto no qual eu trabalhava na época – um romance policial chamado Ted pode não responder por que seu status está definido como off-line. Devo retomar este livro em 2017, porque O Duplo da Terra não quis saber de esperar.

Pra finalizar: qual o seu livro, filme e música preferidos?
Ah, perguntinha difícil. Eu li muitos livros sensacionais, mas um, em especial, mudou a forma como eu enxergava a literatura, e a própria vida: O Acrobata Pede Desculpas e Cai, de Fausto Wolff. Tenho este livro na minha cabeceira, todo demolido, riscado e cheio de anotações. Já sobre filmes, também vou citar um que mudou minha maneira de ver a política, e o nosso papel em uma sociedade que está obviamente doente: V de Vingança, é obrigatório assistir. E música, terei de citar um artista, e não uma música em especial: Raul Seixas certamente é o cara que ajudou a formar minha personalidade. Comecei a ouvi-lo quando tinha 9 anos; hoje tenho 31, e sigo ouvindo. Um cara atemporal. Sou realmente fã.


Agradecimentos: Jana Lauxen.
Siga Jana no FacebookTwitter, Blog ou site do novo livro.

 

 

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